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Investimentos

O efeito do come-cotas no retorno dos fundos de renda fixa

Maio é mês de come-cotas para os fundos de renda fixa. Este nome esquisito serve para designar o imposto de renda cobrado semestralmente dos fundos, em maio e novembro de cada ano. Em qualquer aplicação financeira, o IR, quando devido, é cobrado somente no resgate. Não é assim nos fundos de renda fixa: no caso destes, o IR é cobrado semestralmente, diminuindo o número de cotas que você detém do fundo. Daí o nome “come-cotas”.

– Professor Money, qual o efeito disso sobre a rentabilidade do fundo?

Bem, sobre a rentabilidade DO FUNDO nenhuma, pois os ativos do fundo continuam rendendo como antes. Mas se a pergunta for qual o efeito sobre a SUA rentabilidade, aí posso dizer que existe um certo impacto. Aquela parcela que você pagou de IR a cada 6 meses deixou de ser aplicada no mercado. Portanto, você não obteve rentabilidade sobre esta parcela, impactando negativamente a rentabilidade que entre no seu bolso. Este impacto depende da permanência na aplicação, mas normalmente não é muito grande. Vejamos um exemplo.

Digamos que você aplicou R$ 1.000 em um fundo que rende 10% em um ano, e resgata deste fundo após um ano. A alíquota de IR aplicável é de 20%. Portanto, se não existisse o come-cotas, a sua rentabilidade seria a seguinte:

Rentabilidade bruta (antes do IR): R$ 1.000 x (1+0,10) = R$ 1.100

IR: 20% * (1.100 – 1.000) = R$ 20

Rentabilidade líquida (depois do IR): 1.100 – 20 = R$ 1.080

Portanto, rentabilidade líquida de 8%.

Agora vejamos o que acontece com o come-cotas. Para acompanhar o exemplo abaixo, você precisa saber que a alíquota do come-cotas é de 15% para os fundos longo prazo, que é o exemplo que vamos usar. A diferença de 5% para a alíquota de 20% é cobrada no resgate do fundo. Digamos que a aplicação tenha acontecido no último dia do ano, o valor inicial da cota é R$ 1,00 e o número de cotas seja de 1.000, totalizando uma aplicação inicial de R$ 1.000. Assim, temos:

Rentabilidade bruta até o 1o come-cotas (5 meses até o final de maio): 1 x (1+0,10)^(5/12) = 1,040512

Valor da aplicação: 1.000 x 1,040512 = R$ 1.040,51

IR (em $$$): 15% * (1.040,51 – 1.000) = R$ 6,08

IR (em número de cotas): 6,08 / 1,040512 = 5,843277 cotas

Número de cotas remanescentes: 1.000 – 5,843277 = 994,156723

Rentabilidade líquida até o 1o come-cotas: 1.040,51 – 6,08 = R$ 1.034,43

Rentabilidade bruta até o 2o come-cotas (6 meses até o final de novembro): 1,040512 x (1+0,10)^(6/12) = 1,091298

Valor da aplicação: 994,156723 x 1,091298 = R$ 1.084,92

IR (em $$$): 15% * (1.084,92 – 1.034,43) = R$ 7,57

IR (em número de cotas): 7,57 / 1,091298 = 6,936694 cotas

Número de cotas remanescentes: 994,156723 – 6,936694 = 987,220029

Rentabilidade líquida até o 2o come-cotas: 1.084,92 – 7,57 = R$ 1.077,35

Rentabilidade bruta até o resgate (1 mês até o final de dezembro): 1,091298 x (1+0,10)^(1/12) = 1,100000

Valor da aplicação: 987,220029 x 1,100000 = R$ 1.085,94

Agora, temos que cobrar dois IRs: o primeiro com alíquota de 15% sobre este último mês de rentabilidade, e o segundo de 5% (diferença entre os 20% e os 15% já cobrados) sobre a rentabilidade de todo o período. Assim, temos:

IR: 15% * (1.085,94 – 1.077,35) = R$ 1,29

IR complementar: 5% * (1,10 – 1,00) * 1.000 = R$ 5,00 (utilizando o número inicial de cotas)

Rentabilidade líquida até o resgate: 1.085,94 – 1,29 – 5,00 = R$ 1.079,65

Note, portanto, que a rentabilidade final foi impactada em R$ 0,35, ou 0,035% (ao invés de obter 8,00%, sua rentabilidade foi de 7,965%). Nada que vai fazer você ficar muito mais pobre.

Crédito do thumbnail: Free Digital Photos by amalkhosh.

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16 Comentários

  1. Vlad Araujo disse:

    Bom dia,

    Sou servidor do Min. Planejamento, vi o vídeo DE UM PROFESSOR DA AMBIMA, ENSINANDO COMECOTAS – lá, considerando rentabilidade de 10% EM UM SEMESTRE, APENAS, há um decréscimo de 1,32% no número de cotas – bem diferente de seu cálculo, onde foram feitos além de 2 semestres, ainda os 5% final, e o resultado dá totalmente diferente, seja deste vídeo do professor da AMBIMA, seja da aula de comecotas no blog http://www.clubedospoupadores.com

    VÍDEO DO PROFESSOR DA AMBIMA (SIMPLES, DIRETO E OBJETIVO)

    ARTIGO DO CLUBE DOS POUPADORES
    http://www.clubedospoupadores.com/investimentos/come-cotas.html

    No exemplo – mais fácil da Ambima – em vídeo, 100 cotas, no valor de 10.000, aplicados a 10%, com cada cota valendo R$ 10,00, caem para 98,62 cotas – ou seja, a quantidade de cotas cairam 1,32%, e a rentabilidade, e a rentabilidade, que seria (sem comecotas) de 1.100, caiu para 1.080,00 (ou seja, de 1.000, que seria o valor sem comecotas, o rendimento vai para 1.085 ((com adiantamento de 15% comecotas, que seria 100,00 x 15% = 85 + 1.000 capital inicial =1085).

    PORVENTURA, MESMO APÓS O ARTIGO REVISADO, O VALOR NÃO ESTÁ ERRADO? VISTO QUE TANTO LEONARDO ÁVILA DO CLUBE DOS POUPADORES, QUANTO O PROF. DA AMBIMA, CALCULAM ALGO COMO 1,16 A 1,5% A PERDA DE RENTABILIDADE NO ANO?

    MUITO OBRIGADO.

    • drmoney disse:

      Prezado Vlad, obrigado por sua contribuição.

      No caso do vídeo do professor da Anbima, ele não afirma que a perda de rentabilidade foi de 1,32% por conta do come-cotas. Esta perda de 1,32% refere-se à cobrança pura e simples do IR, que ocorre em TODOS OS INVESTIMENTOS. Em todo e qualquer investimento que cobra IR (fundos, CDBs, Tesouro Direto), você vai ter esta perda, que é simplesmente a diferença entre o retorno bruto e o retorno líquido de IR de qualquer investimento. Este meu artigo refere-se à outra perda: o fato de cobrar IR ANTES do resgate, faz com que aquele dinheiro que você pagou ANTECIPADAMENTE de IR a título de come-cotas, não possa continuar sendo aplicado. Então, a perda refere-se ao CUSTO DE OPORTUNIDADE deste IR que você recolheu antecipadamente.

      O artigo do Clube dos Poupadores mostra exatamente o mesmo conceito do meu artigo. A perda de 1,16% refere-se a um período de 5 anos, ao passo que meu cálculo refere-se a um período de apenas 1 ano. Assim, os cálculos estão corretos, e a diferença apontada é devida ao prazo do investimento (quanto maior o prazo, maior a perda).

  2. Filipe de Leu disse:

    Acho uma comparação covarde entre fundos com e sem come cotas levando em conta a mesma rentabilidade. É óbvio que ninguém escolheria o fundo com come cotas se a rentabilidade é a mesma.
    Seria interessante, por exemplo, comparar um Fundo DI que rende 102% do CDI com a LFT, que rende 98% do CDI (considerando um pagamento de IR de 4/4 anos).
    Abraço

  3. murilo disse:

    Prezado,

    Achei curioso o cálculo do IR complementar: 5% * (1,10 – 1,00) * 987,220029 = R$ 4,94, esta correto??

    De acordo com essa fórmula vc ta considerando uma aplicação inicial de R$ 987,22 e de valor final R$ 1.085,94 e cobrando 5% em cima da variação, mas o correto não seria considerar uma aplicação inicial de R$ 1000,00??

    Abs

  4. Heloísa Helena disse:

    Prezado Dr. Money, no seu exemplo foi utilizado o rendimento anual de 10% foi transformado em mensal por capitalização mensal (elevando-se à potência fracionária: ^(1/12)).
    Porém, até onde sei, tanto CDB como Fundos de Renda fixa (atrelados ao CDI por exemplo), possuem rentabilidade composta diariamente. Logo, o efeito seria maior se os juros compostos diários fossem utilizados no cálculo.
    Sua demonstração foi muito clara, passo a passo, e parabenizo por isso.
    Creio que juros compostos diários ficaria muito complexo para a maioria dos leitores.
    Mas se for possível adicionar um exemplo de aplicação em 4 anos (a maioria dos CDBs atuais), creio que a diferença ficará muito mais evidenciada.

    • Dr. Money disse:

      Heloísa, obrigado pelo seu comentário. Na verdade, o que importa é a rentabilidade efetiva anual, 10%. A forma como descapitalizo para 5 meses não muda o resultado final: (1,10)^(5/12) é equivalente a (1,10)^(105/252), considerando 252 dias úteis em um ano, e 21 dias úteis por mês.
      Com relação ao prazo, você tem razão: quanto maior, maior a diferença. Em um dos comentários abaixo, mostro os resulados para 30 anos, o que dá uma diferença substancial de 23,5%.

  5. Anonymous disse:

    Dr. Money, boa tarde!
    Tenho 21 anos e me chamo Luana, acho excitantexfascinante estar estudando sobre Fundos de investimento,tributaçao etc… Descobri seu site por acaso, atravez de pesquisa que ando fazendo, e posto este para lhe parabenizar pela clareza nas explicações, parece tudo tão fácil para vc. Pretendo chegar lá. Ah!!! Fiz o curso CPA10 e farei minha prova da ANBIMA dia 30/11/11(proxima quarta), caso tenha alguma dica para me enviar ficarei grata. Meu e-mail é lucristina.alves@hotmail.com
    Abraços! Luana Cristina

  6. Willy Fog disse:

    Parabéns pelo artigo Dr. Money!
    .
    Com o intuito de compartilhar informação, postei o seu texto com um link para o seu blog, no seguinte endereço:
    .
    http://forum.infomoney.com.br/viewtopic.php?p=1547540#1547540
    .
    Abcs

    • Dr. Money disse:

      Obrigado Willy. Tenho uma sugestão: o artigo poderia ser postado no fórum apenas em parte. Quem estivesse interessado, clicaria no link para terminar de ler. Assim, você estaria contribuindo para o aumento do tráfego dos blogs.
      Abraço!

  7. Anonymous disse:

    Dr. Money,

    Apenas complementando, a apresentação abaixo (slide 18) contém um gráfico interessante, comparando fundos com e sem come-quotas.

    http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/download/avisos/2011/Apresentacao_Expomoney_Salvador_2011.pdf

  8. Anonymous disse:

    Prezado Dr. Money,

    Obrigado por responder meu post.

    Acho que a lição é a seguinte: no longo prazo, o come-quotas tem um impacto relevante. Logo, via de regra, não é recomendável usar um fundo DI para acumular recursos para aposentadoria. Melhor aplicar em TD/LFT ou mesmo em PGBL.

    Já como fundo de emergência, aí sim concordo que um fundo DI tem uma pequena vantagem, que é a liquidez diária (e não semanal, como no TD).

    Por fim, mais uma vez, parabéns por levantar o tema. Vejo com muita frequencia simulações de rendimento que simplesmente "desprezam" o efeito do come-quotas.

  9. Dr. Money disse:

    Prezado anônimo, você está correto, ainda que eu tenha chegado em números um pouco diferentes:
    Fundo sem come-cotas:
    1000*1,1^30-15%*(1000*1,1^30-1000)=R$14.981,99
    Fundo com come-cotas: R$ 11.456,49
    Diferença: 23,5%.
    De qualquer forma, uma diferença bem significativa. Por isso, para poupança previdenciária (de longuíssimo prazo) recomenda-se o PGBL, que além de ter o benefício de redução da alíquota do IR, não sofre o come-cotas.
    Abraço e obrigado pela observação.

  10. Anonymous disse:

    Prezado Dr. Money,

    Para um ano, a diferença é mesmo desprezível. No entanto, tentei simular a diferença para um período de 30 anos (o que é razoável pensando em aposentadoria, por exemplo).

    Veja minhas hipóteses e resultados:

    Capital inicial: 1000,00
    Rentabilidade ao mês: 0.75%

    Resultado ao fim de 30 anos:
    Fundo com come-quotas= 9989.31
    Fundo sem come-quotas= 12764.89
    Diferença= 0.27

    Ou seja, um ganho significativo de 27%.

    Será que poderia conferir se essa minha simulação procede?

  11. Roberto Pina Rizzo disse:

    Sempre achei "curioso" estar financiando o governo e pagar imposto por isto… Isto porque muitos fundos possuem títulos do governo em sua composição.

Por gentileza, se deseja alterar o arquivo do rodapé,
entre em contato com o suporte.